07 janeiro, 2010

ao espelho


Há qualquer coisa de profundamente irresistível nos homens que nunca deixam de ter ar de rapazes que jogam à bola e vão a pé para o liceu. O olhar aceso de quem acabou de gamar doces de despensa, o andar errático, os cabelos sempre despenteados, as mãos claras direitas e sem marcas do tempo. O riso tímido, como se fosse a primeira vez, o mexer no brinco da orelha quando se está sem jeito. São meninos para sempre.
Tu és assim, esse rapaz que apesar de todas as marcas que foste herdando dos dias; a infância guardada numa caixa debaixo da cama; a adolescência de copos e drogas leves; o teu amigo, esse que te roubou, aí num verão, a miúda de quem gostavas; a primeira vez que andaste a pancada; a vontade de sair de casa e abraçar o mundo e depois a solidão repartida entre as mulheres que desejaste e nunca tivestes e as que te incendiavam o corpo e te deixavam o coração em pedra, porque nunca as amas-te realmente.
Hoje cresceste, começaste a trabalhar a usar fato e gravata quando é preciso. Hoje, todas as manhãs, ao espelho perguntas à tua imagem quem és tu, afinal. Vives numa cidade que não é tua nem de ninguém, numa casa pequena demais para os teus sonhos que se dissolvem no vapor do duche, da mesma forma que possivelmente já perdeste o teu grande amor porque não soubeste amar da forma correcta. O que tu não sabes é que do outro lado do espelho eu te vigio, como se fosses meu passado, e te protejo como se fosses o meu presente, e te desejo como se pudesse ser o teu futuro. Mas ainda é cedo e é tempo de guardar no silêncio estes sonhos. E esperar que um dia sejas quem sempre sonhaste, e para que te vejas ao espelho como eu já te vejo. Como és.

por: (anónimo)

2 comentários:

teresa disse...

nao sei se foste tu quem escreveu mas...é duro e é verdadeiro. possivelmente todos olhamos ao espelho e nos perguntamos.. eu pelo menos olho e questiono-me muitas vezes. Constantemente. Ninguém me conhece melhor que eu.. e no entanto, ninguém questiona tanto como eu, aquela que vejo no reflexo do espelho.

Anónimo disse...

és um eterno sonhador!